Nova vergonha nacional: a exploração financeira dos aposentados


O leitor que acompanha meu trabalho sabe que sou absolutamente contra a rotulação dos bancos como vilões de nossa economia. Bancos são, na verdade, empresas que constroem grande parte de seus lucros a partir da ignorância de seus clientes cultivada caprichosamente há séculos por políticas educacionais que privilegiam a exclusão social e a elitização da informação de valor, fazendo de nosso governo clientelista o verdadeiro vilão. Clientes que ignoram as oportunidades oferecidas pelo sistema financeiro entregam aos bancos grande parte de sua renda, inocentemente, por pura falta de conhecimento ou orientação.

Até aí, não vejo nada de errado na ação dos bancos. O spread bancário (ganho obtido pela diferença entre as taxas pagas pelos recursos captados e as taxas recebidas pelos recursos emprestados) continuará elevado enquanto os clientes do sistema aceitarem contrair empréstimos a taxas absurdamente elevadas. Havendo demanda, haverá oferta.

Porém, nos últimos meses, temos assistido ao crescimento da divulgação de um produto cujos propósitos maquiavélicos têm sido percebidos por poucos: o crédito para aposentados e pensionistas do INSS. Anunciado como uma conquista do aposentado, este produto coroa o consagrado castigo invisível que nossa sociedade impõe àqueles que já ofereceram sua parcela de contribuição com a sociedade e com a economia. Da pouca renda que conseguiram preservar, os aposentados agora se vêem disputando seus parcos trocados com financeiras e bancos, furiosamente ávidos a sugá-los na forma de juros. Se a renda do aposentado já é baixa, por que este absurdo incentivo em convencê-lo a consumir além de suas possibilidades e perder parte da renda dos meses seguintes em juros?

E os juros não são nada baixos. No site do Banco Real, por exemplo, o chamado “Crédito da Boa Idade” cobra juros de 4,9% ao mês, contra juros de 3,5% ao mês cobrados da antecipação do imposto de renda ou do 13º. salário. O Unibanco pratica taxas semelhantes. Por que mais caros, se são retidos pelo banco antes mesmo de chegar às mãos dos aposentados, sem risco, como nos outros dois casos? O Banco do Brasil cobra, além dos juros, uma tarifa de “abertura de crédito” de 2%. Há financeiras cobrando juros mais altos que os dos cartões de crédito, mesmo para aposentados. E são oferecidos como uma verdadeira oportunidade!

Fico consternado ao assistir a comerciais de televisão, com alguns dos mais prestigiados e reconhecidos artistas e apresentadoras – muitos já na “melhor idade” – oferecendo com entusiasmo a falsa oportunidade dos empréstimos específicos para este público. Frases como “crédito barato”, “melhores juros” e “melhores prazos” têm o exclusivo propósito de iludir, são tão mentirosas quanto os anúncios de “oferta” dos hipermercados. Pior, é que provavelmente os próprios artistas, contratados por gordos cachês, são vítimas dessa ilusão. Certamente, se soubessem das nefastas conseqüências dos produtos que oferecem, recusariam qualquer cachê, por questões éticas e morais.

O fato é que estes produtos efetivamente mancham a reputação dos bancos. Se o objetivo é garantir a cidadania àqueles que têm renda baixa mas garantida, por que não isentá-los de tarifas? Por que não oferecer fundos com taxas de administração reduzidas, ou reduzir o investimento mínimo para acesso aos melhores fundos? Por que não oferecer crédito com efetivas vantagens em relação a outras opções? Para não ser injusto com todo o sistema financeiro, cito o exemplo da Nossa Caixa de São Paulo, que oferece crédito para aposentados com limite de até três vezes o valor dos benefícios mensais, a juros da ordem de 2,5% ao mês, com prazo para pagar de até três anos. Há alguma boa intenção neste mercado…

Aposentado, fique atento às armadilhas! Fuja das propostas encantadoras e gentis de seu gerente, ele apenas está colocando em prática o que aprendeu em cursos de vendas. Evite gastar um dinheiro que você não tem. E não culpe sua apresentadora de televisão favorita pelo dano potencial que ela está causando. Provavelmente ela não sabe do que está falando e é tão vítima quanto você.

Gustavo Cerbasi é consultor financeiro e professor da Fundação Instituto de Administração, sócio-diretor da Cerbasi & Associados Planejamento Financeiro e autor dos livros Dinheiro – Os segredos de quem tem e Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, ambos pela Editora Gente.

Gustavo Cerbasi é consultor financeiro e autor de Casais Inteligentes Enriquecem Juntos (Ed. Gente), Como Organizar sua Vida Financeira (Elsevier Campus) e Os Segredos dos Casais Inteligentes (Ed. Sextante). Acesse os perfis no Twitter e Facebook.
Publicado originalmente no site www.maisdinheiro.com.br
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Fonte: http://www.maisdinheiro.com.br/artigos/3/89/nova-vergonha-nacional--a-exploracao-financeira-dos-aposentados

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